Em 24 de abril de 2026, marca-se o 40º aniversário de um marco histórico para o Distrito Federal: as primeiras eleições diretas para a Assembleia Nacional Constituinte, realizadas em 1986. Nesse evento, os moradores de Brasília e cidades-satélites elegeram oito deputados federais e três senadores, conquistando a autonomia política após 26 anos. A transição da ditadura militar para a democracia, impulsionada pela Emenda Constitucional nº 26 de 1985 e pela Lei 7.943/86, permitiu essa participação direta na formação da Constituinte.
O contexto da transição democrática
A campanha eleitoral iniciou em junho de 1986 e culminou nas eleições de 15 de novembro do mesmo ano. Essa movimentação representou a luta pela voz do povo do Distrito Federal, que até então carecia de representação genuína. Candidatos como Augusto Carvalho, Valmir Campelo Bezerra e Maria de Lourdes Abadia disputaram as vagas em um cenário de alta inflação e restrições remanescentes do regime militar.
A gente orientava que as pessoas voltassem às cidades de origem e votassem em candidatos indicados pelo partido. Eu e mais um grupo fizemos isso em Patos de Minas.
Augusto Carvalho
Testemunhas como Yesmin Sarkis relembram o período de euforia e participação popular, apesar das dificuldades econômicas.
A inflação era grande ao ponto de termos reajustes semestrais nos salários. Nos três primeiros meses, eu sabia que precisava economizar o máximo possível para poder comer nos outros três.
Yesmin Sarkis
As estratégias de campanha e o engajamento popular
As campanhas foram intensas, com 69 candidatos a senador e 172 a deputado federal competindo pelas vagas. Estratégias incluíam distribuição de santinhos, adesivos, carreatas, passeatas e abordagens porta a porta. Valmir Campelo Bezerra destacava a necessidade de representação autêntica, criticando a falta de vivência dos antigos representantes.
O povo precisava de voz. A comissão de representantes junto ao Senado não tinha a vivência, não sabia dos problemas de Brasília. Muitos [dos componentes] sequer tinham ido às cidades-satélites.
Valmir Campelo Bezerra
Yesmin Sarkis recorda o entusiasmo familiar e comunitário, com crianças participando ativamente do processo democrático.
Minhas filhas curtiram muito esse período. Saíamos de um período de restrições de ideias. As pessoas estavam alegres, queriam participar. Tinham as desavenças, mas não importava, porque havia a certeza de que aquilo poderia transformar as coisas. Minha filha mais velha tinha oito anos e ela e os colegas aproveitaram bastante.
Yesmin Sarkis
O legado da autonomia política
Essa eleição não apenas concedeu autonomia ao Distrito Federal, mas também simbolizou a redemocratização brasileira. Publicada pelo Jornal de Brasília, a história reflete o espírito de transformação e a importância da participação cívica. Quarenta anos depois, o evento continua a inspirar reflexões sobre democracia e representação local.