Imagine acordar todos os dias sob um banco de praça, com apenas um pedaço de papelão como escudo contra o frio e a rejeição. Essa foi a realidade de Antônia Lopes aos 12 anos, em Campo Maior, no Piauí, após ser abandonada pela mãe. Mas o que poderia ser o fim de uma história triste se transformou em um relato de resiliência e amor. Hoje, aos 54 anos, Antônia é assistente social na Ação Social do Planalto (ASP), em São Sebastião, Brasília, onde dedica sua vida a acolher cerca de 200 crianças e adolescentes em vulnerabilidade, oferecendo alimentação, reforço escolar e atividades que constroem futuros mais luminosos. “Eu vivi a dor da fome e da rejeição. Hoje, dedico minha vida para que nenhuma criança precise sentir o que eu senti”, conta ela, com um sorriso que ilumina o caminho de quem a conhece. Seu objetivo é expandir o projeto para até 500 atendimentos, provando que o amor pode mudar destinos.
A jornada de Antônia é como um livro de aventuras reais, cheio de reviravoltas que levam à redenção. Após anos nas ruas, uma senhora a resgatou para cuidar de suas filhas, e de lá ela migrou para Recife e Manaus, até chegar a Brasília em 1993. Morando no Varjão, começou trabalhos voluntários com pessoas em situação de rua, despertando o desejo de estudar serviço social. Com o apoio do marido, Arlindo Lopes, que custeou sua graduação, ela mergulhou no conhecimento e na solidariedade. “Se eu tivesse conhecido o serviço social antes, talvez não tivesse passado por tanta dor”, reflete. Seu primeiro estágio na ASP foi um momento mágico: “Quando pisei aqui a primeira vez, eu chorei. Era o lugar que eu sonhava em ter quando estava nas ruas”. De estagiária a contratada, Antônia agora faz visitas domiciliares, identifica famílias necessitadas e acompanha crianças com sensibilidade, priorizando o amor e a urgência do sofrimento.
O impacto de Antônia vai além das paredes da instituição; ele ecoa nas vidas que ela toca, como a de Alessandra Almeida Oliveira, mãe de Gabriel, um adolescente autista, que encontrou nela não só apoio prático, mas um ombro amigo. “Ela sempre cuidou da gente com amor e carinho. Apesar de todas as suas lutas, sempre a vi sorrindo, e isso me inspira”, diz Alessandra. Na ASP, dirigida por Natanry Osório e com uma equipe multidisciplinar, as crianças recebem refeições, acompanhamento psicológico e pedagógico, fortalecendo laços familiares. Para Antônia, cada abraço é uma cura para suas cicatrizes: “As cicatrizes continuam aqui, mas quando eu ajudo uma criança, elas doem menos”. Vendo ex-alunos se tornarem adultos bem-sucedidos, ela afirma que o amor salva, e seu maior desejo é continuar lutando por um mundo onde toda criança encontre segurança e pertencimento. Essa história nos lembra que, mesmo das sombras, pode nascer uma luz que ilumina muitos caminhos.